A Perda do Reflexo: “La Elegida”, de Lilian Elphick

Paula ha tenido la gentileza de escribirme y me envió su tesis en un formato más accequible para mí. En el capítulo III, la autora estudia el cuento “Amor”, de Clarice Lispector, y “La elegida”. Finaliza con un análisis comparativo entre ambos textos. Agradezco a Paula haber elegido este texto para su corpus de estudio, y me llena de satisfacción estar junto a Clarice Lispector, a quien yo admiro por sobre todas las cosas.


Por Paula Vera Bustamante de Lima

Para André Breton, a rua é o único campo de experiência legítimo[1]; nela a epifania pode se mostrar e surpreender o cidadão. A rua se transforma não só no campo da vivência e do conhecimento, mas também no campo da revelação do acaso, que se fragmenta na cidade sob os reflexos que ela mesma produz. O acaso se reflete nos milhares de olhos da cidade. Assim também pensava Walter Benjamin ao refletir sobre Paris, a Cidade Luz, que em cada uma de suas ruas e esquinas podia conter uma revelação - fosse numa saída para a “conquista de livros”[2], no devaneio pelas ruas ou ao sentir o aroma de seus cafés. Tudo que rodeava Benjamin se transformava numa revelação e ele se empenhava, como Baudelaire, em desvendar os mistérios da cidade.

Benjamin entende que “a cidade se espelha em milhares de olhos, em milhares de objetivas. Pois não apenas o céu e a atmosfera, nem apenas os anúncios luminosos nos bulevares noturnos, fizeram de Paris a Ville Lumière - Paris é a cidade dos espelhos: o espelhado do asfalto de suas ruas. (...) Espelhos são o elemento intelectual desta cidade, seu brasão, no qual se inscreveram os emblemas de todas as escolas poéticas”[3].
 
Assim como a cidade se espelha, também se lê. Ela é para Benjamin um livro que precisa ser lido[4]; cada nome de rua, cada praça, cada bulevar, tudo é para ser lido, decifrado e compreendido. Esta é a tarefa do cidadão que surge na poesia de Baudelaire, a tarefa do flâneur: o perder-se na cidade e descobri-la em seus mínimos detalhes[5].

O flâneur, um dos paradigmas benjaminianos, é aquele que possui um forte “interesse pelo espetáculo da cidade. (...) O flâneur [está] impregnado pelo tédio perante a vida e pelo gestus da espera”[6]. Assim como a protagonista do conto “La Elegida”, de Lilian Elphick, a flâneuse que vaga pelas ruas de Santiago, onde raramente chove, para contemplar a cidade molhada e esperar que alguma coisa extraordinária aconteça nela.



En Santiago no llueve nunca, pero hoy sucede lo contrario: (...) La casa [está] oscura, un poco fría, salgo.
Camino por ciertas calles que no tienen salida directa sino que dan vueltas y vueltas, terminan en plazoletas y luego continúan. Me gusta perderme y caminar sin rumbo bajo esta lluvia.[7]

 
A flâneuse anônima se surpreende nessa noite com a inusitada chuva e, apesar do frio, sai de casa, atendendo aos chamados da misteriosa cidade. A chuva dessa noite prenuncia algum descobrimento inusitado.

Entregue a um andar sem rumo, por ruas sem saída que davam voltas em torno de si, deixa-se conduzir pelo chamado da cidade até uma esquina. Me gusta perderme y caminar sin rumbo bajo esta lluvia.”[8] Ali se produz a convergência do processo da revelação: uma jovem mulher está parada, aparentemente esperando atravessar a rua. Sem deixar de observar o comportamento estranho dessa mulher que se balança na calçada com as mãos nos bolsos, a flâneuse finge comprar alguma coisa numa banca de verduras. Percebe que a mulher continua se balançando, com o olhar fixo no chão. A flâneuse caminha decidida até ela, mas o que fará, o que lhe dirá? Limita-se a observá-la detidamente. Ambas estão ensopadas sob a chuva e nenhuma mostra grande preocupação com isso. Duas mulheres próximas, solitárias e silenciosas, numa segunda-feira chuvosa que parece irreal: “Igual que [yo] (...), no espera nada de este día imaginario.”[9]

Mas elas se olham, sorriem e quebram o silêncio da noite opaca, sem falar do tempo ou de algum convencionalismo. A cidade permite nessa noite que as formalidades fiquem de lado para dar espaço à verdade. Assim, a protagonista – narradora da diegese – fica sabendo que a mulher tinha procurado emprego durante horas, sem sucesso. A tristeza da mulher faz surgir uma compaixão no ar. A narradora reflete na linguagem o estado de espírito daquela mulher: 

El desánimo le [surgía] feroz de sus ojos grises.”[10] E aproveita o espaço das confissões para contar “una historia de abandonos y de calendarios inútiles[11].

Nenhuma parece importar-se com a chuva. Elas se interessam apenas, nesse momento, em compartilhar suas vidas nem que seja por alguns instantes; o que importa é anular a solidão, embora fugazmente.

Para Walter Benjamin a cidade se lê, se decodifica, se decifra. Para a flâneuse, observar e escutar a mulher da cidade é interpretar sua forma de perceber a realidade e descobrir nela a fatalidade que impregna seus olhos, a forma como enxerga a vida, sem possibilidades de salvação, a não ser para os eleitos.


– El mundo se va a acabar – me dice serenamente – pero quedarán algunos, los elegidos.[12]


Apenas os escolhidos habitarão a terra depois da destruição do mundo conhecido – essa é a mensagem que fica pairando no ar. Nesse momento a narradora-personagem percebe que a mulher não se sente escolhida pela vida, sua crônica falta de emprego e sua endêmica decepção parecem fechá-la para a descoberta de novos horizontes.

As duas mulheres solitárias saem andando de braços dados, como se elas se conhecessem por toda a vida. A flâneuse se sente à vontade com ela, se identifica, de certa forma, com sua teoria dos escolhidos, porque ela também não se sente escolhida pela vida.

Entram num café e conversam por horas, enquanto lá fora a chuva continua caindo, incessante. Nenhuma quer ficar sozinha nessa fria noite, dilatam as despedidas, embora a protagonista não espere nada mais dela. Surpreendentemente, a moça propõe caminhar até o centro da cidade para matar o tempo - ou recobrá-lo, talvez.

É o momento do flanar baudelairiano, a arte de caminhar pelas ruas, olhando as vitrines das lojas como se fosse o grande espetáculo da noite, mas na verdade é uma caminhada triste, uma flânerie[13] na qual o olhar permanece fixo, taciturno, apenas para desejar internar-se na essência dos objetos contemplados, fazer parte deles para descobrir o sentido das coisas da vida e de suas próprias existências. É uma flânerie do desespero e da solidão. 
A falta de comunicação e de perspectivas parecem a tônica desse andar à toa pela cidade.



Caminamos lentamente por calles que yo conozco demasiado, algunas veces ella se detiene a mirar las vitrinas. Sin embargo ella no mira, sus ojos se pierden en un camino recto, interminable, atraviesan los maniquíes, como si quisieran ir más allá de todo.[14]


A flâneuse, que já conhecia de cor as ruas dessa Santiago fictiva, propõe, depois de uma hora de peregrinatio com a companheira escolhida pelo destino citadino, ir até um hotel, mudando com essa sugestão o cenário da experiência epifânica; de um lugar público, as ruas da cidade, para um lugar privado, um quarto de hotel. Novamente o confronto surge entre o exterior e o interior em que os personagens procuram as respostas a suas inquietações. Nem ela mesma entende o porquê de seu convite; questiona-se por que não a convidara a ir a sua própria casa, mas conclui que seu encontro foi permitido apenas por alguns instantes e, se elas fossem até sua casa, talvez a magia dessa situação inesperada desaparecesse.


No entiendo mi propia invitación, por qué no a mi casa, allí estaríamos solas, sin interrupciones, además hace tiempo que ya no recibo visitas inesperadas. Pero, ¿por qué este querer estar solas?, sé que ella también lo siente, por eso nuevamente acepta, sin mirarme, aunque le adivine su sonrisa de pecados secretos.[15]


O hotel, um espaço neutro, permite o contato das duas mulheres livremente, sem autocensuras, porque para as duas certos pecados deveriam ficar ocultos dos olhares indiscretos do cânone, que repudia os casos de paixões proibidas. Por isso, esse hotel de casais, sigilosos e escondidos, se apresenta como o lugar ideal para libertar esses pecados ominosos. Já o espaço da casa, que simbolizava na era matriarcal o espaço da segurança, dos vínculos e da familiaridade, é agora um lugar estranho, desconhecido, que serve apenas para ser habitado. Para a narradora, a casa é o lugar mnemônico de aflição onde se reencontra com sua solidão cotidiana, por isso ela sente que é melhor evitar esse encontro feminino no espaço do domus frio[16].

A autora do convite prefere um lugar desconhecido, onde sua cara e seu nome não sejam jamais lembrados. Naquele espaço amnésico, ela poderá deixar-se levar pelo impulso do amor e cair nos braços dos pecados secretos, inspirados pela mulher estranha revelada pelos desígnios da cidade – mulher cujo nome a narradora-personagem desconhece, mas é a sua escolhida para mitigar a solidão.

As duas esquecem as regras estabelecidas pela sociedade e se entregam a um vilipendiado prazer. Com a vantagem de ser as únicas em sabê-lo, pois as paredes do quarto de aluguel, mudas testemunhas, estão livres de qualquer julgamento, de qualquer opinião.


Ella se deja ir como en un baile antiguo. Me abraza y echa su cuerpo hacia atrás en un apuro que trato en vano de retener, hasta que grita estremecida por sueños desenfrenados. La elegida grita muriendo sobre mí. (...) La elegida no se da cuenta de que por la claraboya del techo se descuelga la lluvia y que ya da igual este silencio de noche clausurada.[17]



No entanto, ao raiar o dia, “a escolhida” desperta arrependida do amor fugaz vivenciado na noite fria de chuva. É nesse momento que a protagonista, contrastando com o clima de intimidade que parecia ter sido criado na noite anterior, se dirige à eleita usando um desiludido usted – em castelhano, uma forma distante de tratamento –, num sinal de recriminação. Usted no quiso abrir sus ojos, y cuando lo hizo fue como despertar de un mal sueño, algo nuevo, incómodo, quizás.”[18]

A voz da narradora, agora voltada principalmente para sua escolhida, enche-se de nostalgias e decepções ao lembrar essa noite e as palavras que exclamou para alcançar seu coração: “Usted no sabe que el azar irrumpe sin que lo hayan llamado. Usted no sabe como durmió sobre mí, que yo la acaricié, que silenciamos la lluvia, la misma que ahora nos insulta, que yo le di calor.”[19] Mas as palavras são ditas em vão: nem o coração nem o amor de sua escolhida são capazes de escutá-las, porque na verdade ela “durmió soñando con un hombre joven[20].

O ansiado amor, nesse despertar, acaba sendo uma miragem produzida pela solidão da cidade e pelo desejo da flâneuse de ser correspondida em seu amor proibido. O que mais lhe dói é que sua “mulher dos olhos cinzas” quer afastar de si toda lembrança, todo desejo inconsciente. Quer reconhecer-se, reafirmar-se em seu ser e estar no mundo, em sua sexualidade, apalpando seu corpo e arrumando suas roupas – atitude que cala fundo na anônima protagonista, que deseja verdadeiramente ser amada, mas só recebe desprezo. Já a escolhida demonstra a cada instante à narradora-personagem que a única coisa que quer é fugir dessa noite, dessa entrega ilícita, desse “encontro casual entre duas mulheres”[21].


¿La volveré a ver? Usted se esconde frente al espejo para no responder. Su reflejo no puede responder. Yo no la miro a usted, miro a una mujer de mejillas sonrojadas que se alisa el pelo y lo ordena y que palidece y se enfría y que palidece cada vez más, que mira fijamente el contorno de una mujer que palidece frente a un espejo.[22]


 
O espelho é para a escolhida o instrumento de reafirmação de sua condição de mulher e de auto-afirmação de sua condição de heterossexual. O insistente olhar no espelho termina ferindo a protagonista anônima, que acreditava por alguns instantes ter finalmente encontrado, naquela estranha, uma alma em busca de um igual.

No entanto, esse olhar insistente no espelho indica a necessidade de restabelecer as regras rompidas numa noite de desespero; numa noite em que podia acabar o mundo e nada importaria, nem o encontro infeliz dessas mulheres. A escolhida contempla no vidro a afirmação de sua identidade[23], enquanto a outra, a narradora, apenas olha o espelho de longe, pois já não se pode ver nele.

Segundo Jean Chevalier e Alan Gheerbrant, na tradição budista, um dos significados do espelho é a transformação da pessoa que se reflete nele, sempre em busca da perfeição, pois o espelho procura corrigir a imagem refletida, até alcançar sua própria essência. Por outro lado, o espelho também pode ser considerado um elemento de condenação, pois quem se olha nele nunca poderá ocultar o que realmente é[24]. Assim, no conto, o espelho acaba sendo o elemento de revelação que procura mostrar a essência dos seres e, ao mesmo tempo, a distância que separa as duas mulheres, que por uma noite foram uma alma só.

A narradora confessa: “Tengo miedo de que se vaya, que cruce mi soledad por la mitad y se marche, caminando sin prisa, sin mirar hacia atrás, despidiéndose apenas.[25] Mas a sorte está lançada. A escolhida, após se contemplar bastante no espelho, confirma que só lhe resta sair desse quarto de aluguel e esquecer.

Antes de ir embora, ela diz seu nome, Miriam, e olha pela última vez seu reflexo no vidro. Indicando com esse ato que deixava aprisionada para sempre, no cristal, a “mulher do espelho”, aquela outra mulher que ela chegou a ser.

Essa é a última vez que a protagonista escuta a voz de Miriam e a última vez que vê sua verdadeira imagem. Daí em diante, sua voz e sua imagem, cada vez mais nebulosas, aparecerão apenas na fonte das lembranças, no jogo das recordações[26], que sempre começarão na esquina de uma rua de Santiago e terminarão no pequeno hotel, no lugar de encontro e separação dessas mulheres solitárias.

Miriam, sem aceitar a companhia da flâneuse, sai do quarto firme e tranqüila, como se o amor louco daquela noite não tivesse existido, negando toda possibilidade de um novo contato[27]. Tudo que Miriam deixa claro é o desejo de não voltar a encontrá-la. Já a protagonista fica sozinha no quarto vazio, olhando de longe o espelho que reteve pela última vez a imagem de sua escolhida - não a da mulher que a rejeitara, mas sim a da mulher que fora sua amante noturna e soturna. A partir de então, a narradora compreenderá que o espelho refletirá nada mais que ilusões, impressões perigosas de um possível amor, que na verdade serão reflexos de desilusões de um desamor.

Um calafrio percorre o corpo da flâneuse desiludida. Resignada, descobre que já não consegue se olhar no espelho, porque Miriam levara seu reflexo. Miriam, a escolhida, que procurava a essência das coisas, procurou também a essência da amante proibida e rejeitada e a levou consigo[28].

Desde então, a narradora-personagem apenas sonha em vão em reencontrar sua alma revelada pela cidade, mas sabendo que esse devaneio nunca será concretizado.


He vuelto a aquel lugar, he vuelto tantas veces a mirar el pequeño letrero que sólo dice Hotel Andes, la vieja puerta siempre cerrada, como si nadie entrara o saliera.[29]

 
Nesse ato reiterativo, no rito consciente, ela acaba transformando a passagem do tempo numa rotina que pelo menos lhe devolve a lembrança do amor proibido, que, embora fugidio, tinha sido verdadeiro.

Bachelard explica que o devaneio (le rêverie) é uma fuga para fora do real, é “um fenômeno espiritual” que restaura o ser atribulado da mágoa e da solidão, devolvendo-lhe um estado de paz que parecia perdido[30].

Só através do mundo dos devaneios a flâneuse consegue aplacar a crueza da realidade[31]; refugia-se neles para mitigar sua solidão. Nesses “sonhos acordados” ela é amada por Miriam; as duas se entregam ao ritual mágico do amor. Mas enquanto uma se entrega de corpo e alma, a outra se entrega apenas de corpo, o que terminará magoando ainda mais aquela amante das ruas que teve seu mundo transtornado.


No ha llovido en Santiago. El sol se ha quedado quieto, casi a punto de estallar. Siento nostalgia por usted, Miriam, pero ya no la busco, sólo la sueño cuando me miro desnuda, sentada en una silla frente a mi espejo, (...) sólo la deseo y la nombro en la sencillez de este rito que cumplo, Miriam, por toda esta nostalgia, acariciándome a la hora de la siesta interminable, por usted, Miriam, beso mi propia sombra.[32]


Esse é agora o ritual de amor que a narradora-personagem faz cada noite, até ser despertada e despedaçada pelo arrulho das pombas, que põem fim ao encontro onírico com sua amada. A alvorada é o momento em que pode esquecer sua eleita, pois foi numa manhã que esta a abandonou. Mas o ritual voltará na noite seguinte, porque só nele a flâneuse pode satisfazer sua necessidade de amar e ser amada. Com ele volta Miriam, sua “escolhida sem memória”[33].


Hasta que las palomas que anidan en el entretecho me despiertan, hasta que sus arrumacos me trizan.
Ratas con alas.
Entonces, ahí la olvido.
Miriam.[34]


A chegada da manhã tira todo o encanto dos “sonhos diurnos” inventados durante a noite, porque as pombas, com seus arrulhos de pássaros apaixonados, acabam por mostrar-lhe que para elas sim é permitido concretizar o amor; já para a flâneuse isso está proibido socialmente.

Nesse instante de confronto com a realidade brutal do desamor e da impossibilidade de ser amada, a protagonista percebe seu abandono e a rejeição que a própria sociedade, encarnada em Miriam, tem em relação a ela. Apesar do repúdio social, a cidade, fiel companheira dos excluídos e esquecidos, abre suas ruas e esquinas para os encontros clandestinos entre seus habitantes, qual celestina ajudando a concretizar o amor.

Tudo que resta da epifania citadina para a narradora é o vazio das ruas, a nostalgia do encontro, sua sombra, seus devaneios e a lembrança do espelho. Espelho que já não consegue refletir sua figura, e sim uma mera ilusão: o reflexo da amada Miriam.


Para Roberto Rivera Vicencio, a falta de diálogo caracteriza a narrativa de Elphick, “onde ninguém se conecta com ninguém, onde a incomunicação se torna motivo e tópico, onde cada um fala para si, ou empresta seu corpo entre solidão e solidão, por ali, em alguma rua de nossa cidade”[35].

Essa relação com a cidade já é evidenciada pela escritora Lilian Elphick na epígrafe do conto “La Elegida”. A autora cita versos do poeta francês André Breton, para quem a cidade é o único espaço para a experiência verdadeira: “Um coup de vent sur tes yeux et je ne te verrais plus.[36]

Elphick escolhe os versos por interpretar neles a impossibilidade da protagonista anônima de criar um laço duradouro com o outro, no caso da diegese, com a outra, que é amada, mas não aceita essa relação. A epígrafe antecipa a intenção da flâneuse de demonstrar, embora minimamente, seus sentimentos para Miriam, mas ao revelar seus desejos e paixões acaba afastando qualquer possibilidade de concretização do amor. Basta um sopro do vento que traz sentimentos proibidos para acabar com a ilusão de ser correspondida no amor.

Enquanto a narradora-personagem desfrutava do encontro fortuito com Miriam, esta se imaginava nos braços de um homem jovem. Fisicamente estavam unidas, mas cada uma vivia sua própria ilusão naquela segunda-feira chuvosa, atípica e imaginária.


***

En: A cidade fictiva: visões e mundos da cidade em contos contemporâneos brasileiros, chilenos e portugueses. Cap. III. “Mundos possíveis da cidade fictiva”. Tese apresentada para obtenção do título do Doutor(a) em Letras. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, Brasil, 2007.

[1] Cit. in: Walter Benjamin. Op. Cit., p. 198.
[2] Benjamin diz: “Quantas cidades não se revelaram para mim nas caminhadas que fiz à conquista de livros.” In: Op. cit., p. 231.
[3] Cfr. Ibidem, p. 197.
[4] In: Ibidem, p. 196. Para Benjamin, a cidade deve ser lida antes que desapareça no baú do esquecimento. As ruas da cidade correspondem ao labirinto produzido pelos múltiplos textos. Para o professor Willi Bolle, a cidade entendida como um grande texto corresponde ao modelo literário de Benjamin, sua topografia. Ver: Willi Bolle. Fisiognomia da Metrópole Moderna. São Paulo: Edusp, 1994, p. 367.
[5] O filósofo e escritor alemão comenta: “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Neste caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios.” Ver: Walter Benjamin. Op. Cit., p. 73.
[6] In: Willi Bolle. Op. Cit., p. 366. Bolle explica que a figura do flâneur corresponde a uma imagem dramática, que “possui, por definição, uma extraordinária mobilidade, percorrendo a metrópole em busca de sensações sempre novas, encarnado, na sua agitação extrema, no Homem da Multidão. (...) No conto de Edgar Allan Poe, [o flâneur] tem sua origem no olhar do observador parado, sentado num café, registrando as imagens dos transeuntes.” (Ibidem, p. 367).
[7] O conto “La Elegida” forma parte do primeiro e único livro de Lilian Elphick, La última canción de Maggie Alcázar, publicado pela editora Mosquito, em 1991. O conto “La Elegida” aparece pela primeira vez na antologia de Diego Muñoz Valenzuela e Ramón Díaz Etérovic. Andar con Cuentos. Santiago: Mosquito Editores, 1992, pp. 90-94. E na antologia que se usará neste ensaio: Poli Délano e Rafael Ramírez Heredia. Cuento Chileno Contemporáneo. Breve Antología. Santiago, F.C.E., 1998, p. 115.
[8]La Elegida”, p. 115.
[9] Ibidem, p. 116.
[10]La Elegida”, p. 116.
[11] Ibidem.
[12] Cfr. Ibidem.
[13] A flânerie representa para Walter Benjamin uma degradação da outrora arte burguesa de flanar na cidade, nos tempos de ócio de Baudelaire, mas nas primeiras décadas do século XX a arte do devaneio citadino se transformou em consolo para as massas, carentes de emprego e dignidade. “É para Benjamin uma alegoria da deterioração das condições de vida de uma classe: o indivíduo burguês acaba como desempregado anônimo.” In: Willi Bolle. Op. cit., p. 377.
[14]La Elegida”, p. 116.
[15] Ibidem, pp. 116-117.
[16] Antes da degradação da modernidade, o burguês desejava o regresso a sua casa, para “ser sustentado em suas ilusões pela sua moradia, o intérieur. (...) Ali ele reúne o longínquo e o passado”, diz Benjamin. Esse intérieur, segundo Bolle, ameniza e camufla as dificuldades do mundo externo, os negócios ou os conflitos sociais. In: Willi Bolle. Op. Cit., pp. 378-379. No entanto, após a decadência da modernidade, a moradia já não brinda ilusões nem contemplações do mundo satisfatórias. A moradia é agora um lugar de trânsito que estimula a saída da casa, para encontrar as legítimas experiências no exterior, nas ruas, na cidade.
[17]La Elegida”, p. 117.
[18] Ibidem, p. 118.
[19] Ibidem.
[20] Cfr. “La Elegida”, p. 118.
[21] Cfr. Ibidem.
[22] Cfr. Ibidem.
[23] A escolhida entra em conflito ao olhar-se no espelho, já que ela sabe que cometeu um erro naquela “noite de desespero”. Daí a insistência em contemplar-se, para poder apagar todo vestígio de homossexualismo, pois ela fora outra mulher naquela noite - distinta da que era antes e voltaria a ser depois. Assim nos conta a flâneuse essa atitude confusa de sua escolhida: “Ella me mira y en mí no quedan más que preguntas. Abotona lentamente el abrigo de paño negro y es bella, más bella que antes, toma su bolso, su pañuelo floreado, se desorienta, busca en vano la puerta y, por última vez, mira a la mujer del espejo. Por última vez le sonríe, gira hacia mí y sonríe.” Ver: Ibidem, p. 119.
[24] Ver: Jean Chevalier e Alan Gheerbrant. Op. Cit., pp. 394.
[25]La Elegida”, p. 118.
[26] Para o fenomenologista Mircea Eliade, lembrar implica esquecer, pois só lembramos aquilo que sofre a perda de conhecimento. Este é o jogo da anamnesis, que nos ajuda a recobrar o perdido (o esquecido). A anamnesis nos leva até o manancial de memória perfeita, mneme, e, graças a essa viagem a mneme nos devolve a vida. O esquecimento era equivalente, para os hindus - assim como para os gregos -, à ignorância, à escravidão e à morte. Para os gregos, o esquecimento (letes) “faz parte integrante do reino da Morte”. Ver: Mircea Eliade. Mito e Realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972, pp. 107-109.
[27] O crítico chileno Diego Muñoz Valenzuela explica que a narrativa de Elphick deixa, geralmente, uma espécie de insatisfação e a sensação vívida de que alguma coisa ficou negada. Ver: Diego Muñoz Valenzuela. “La última canción de Maggie Alcázar”. Em: Simpson Sete, Vol. 3, primeiro semestre, 1993, p. 265. Os personagens acabam vivendo seus sonhos através dessa negação da realidade. Estes sonham, mas sabem que a realidade impedirá a concretização do sonho, gerando uma insatisfação latente neles.
[28] Cirlot explica que o espelho é “uma lâmina que reproduz as imagens e de certa maneira as contém e as absorve”. Ver: Juan Eduardo Cirlot. Dicionário de Símbolos. Trad. Rubens Eduardo Ferreira Frias. São Paulo: Editora Moraes, 1984, p. 239.
[29]La Elegida”, p. 119.
[30] Bachelard reconhece no devaneio uma essência feminina, em contraste com o sonho noturno, “tantas vezes marcado (...) pelos duros acentos do masculino”. O devaneio provoca a paz do repouso. Revela-se também como um dos estados femininos da alma (animus e anima). Enquanto o sonho (rêve) pertence ao animus, o devaneio (rêverie) pertence à anima. “O devaneio – diz Bachelard – faz-nos conhecer a linguagem sem censuras. No devaneio solitário, podemos dizer tudo a nós mesmos. (...) No devaneio solitário nós nos conhecemos ao mesmo tempo no masculino e no feminino. (...) Num devaneio puro, que devolve o sonhador à sua serena solidão, todo ser humano, homem ou mulher, encontra seu repouso na anima da profundidade, descendo, sempre descendo, ‘a encosta do devaneio’. Descida sem queda. Nessa profundidade indeterminada reina o repouso feminino. É nesse repouso feminino, longe das preocupações, das ambições, (...) que descansa todo nosso ser.” Cfr. Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio. Trad. Antonio de Pádua Danesi. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, pp. 5-11, 14-21, 54-60.
[31] Para Diego Muñoz Valenzuela, “La Elegida” é um texto cru que expõe com delicadeza a experiência íntima de duas mulheres, cuja solidão e falta de carinho as empurram surpreendentemente para uma situação limite. A linguagem do texto oscila de uma descritiva crueza a um tom cálido e evocativo que reflete bem a sensibilidade feminina contraditória: violenta, doce, terna e selvagem ao mesmo tempo. Cfr. Diego Muñoz Valenzuela. Op. Cit., p. 266.
[32]La Elegida”, p. 119.
[33] Cfr. Ibidem, p. 120.
[34] Ibidem.
[35] Roberto Rivera Vicencio. “Comentario de libros: La última canción de Maggie Alcázar”. Em: Últimas Noticias, Santiago, 04 de junho de 1991, p. 31. A tradução do trecho citado é minha.
[36] “La Elegida”, p. 115.


Foto: Man Ray.

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